C COMO EM CARÍCIA
- Adma Don Bosco
- 4 de jan.
- 3 min de leitura
Continuamos a refletir sobre a preciosidade dos gestos do amor e a urgência de conter a sua subestimação imposta pela perda generalizada de modéstia, fomentada pela indústria do entretenimento e obsessivamente celebrada pelo universo midiático.
No que diz respeito aos gestos de carinho, tudo nos leva a perder a evidência elementar de que as coisas mais preciosas são as mais guardadas e as mais caras, as mais sagradas e necessitadas de sacrifício. A lógica do gozo imediato, com os seus convites persuasivos a sentir-se livre, a superar tabus, a libertar-se de inibições, a falar casualmente ou a explicar cientificamente as coisas do amor, produz feridas mortais no coração dos nossos jovens.
Cristãos sexofóbicos?
Seria possível não nos preocuparmos com isto? Não nos preocuparmos como cristãos, que reconhecemos na carne de Jesus a revelação do rosto de Deus? Que professamos um Deus “nascido de mulher”, que pretendemos ter visto e ouvido, até mesmo “tocado a Palavra da vida”, e que com infinita gratidão sabemos que “pelas suas chagas fomos curados”?
É claro que, embora a fé salvaguarde a unidade do homem no corpo e na alma, não podemos negar que temos um pesado legado atrás de nós. A cultura ocidental acredita que os sentidos mais espirituais são a visão e a audição, enquanto a fé conhece uma misteriosa primazia do tato: a experiência mais profunda de Deus não coincide com a intuição espiritual ou uma perfeição moral, mas com a experiência eucarística; e o crescimento da vida cristã não consiste na superação da sensibilidade, mas no desenvolvimento dos sentidos espirituais, na capacidade de captar a presença do Senhor em tudo, de experimentar a eficácia da Sua Palavra, de saborear o realismo e a bondade do Seu Corpo!
Escutemos Hadjadj, este filósofo francês de nome árabe, judeu de nascimento e católico na profissão de fé: “o amor mais profundo implica uma dimensão tátil. Uma mãe por demais contemplativa faria seu filho se sentir mal. Todos os sacramentos da Igreja são táteis. Eles oferecem resistência máxima à Internet. Não existe um website batismal nem, ao contrário da crença popular, Missa televisionada. A absolvição não pode ser concedida por telefone. A comunhão não pode ser feita por e-mail. A imposição de mãos é necessária. É necessário contato linguístico. Aristóteles também observa que não é nem a visão nem a audição que distingue o homem dos outros animais, mas sim, paradoxalmente, o que ele mais compartilha com eles: em relação aos outros sentidos, de fato, o homem fica muito atrás dos animais, mas em termos da sutileza do toque, ele é muito superior."
Elogio da carícia
Entre os muitos gestos do amor, a carícia é certamente muito reveladora, leva um diretor como Olmi a fazer com que um dos seus protagonistas diga: “todos os livros do mundo não valem uma carícia”!

A carícia expressa o mistério da ternura, que é quando o carinho une a alma e o corpo. O próprio nome já diz: “carícia”, vem de “caro”, que em latim significa “carne”, e sugere a quintessência do sentimento de amor, aquele sentimento da preciosidade do outro, da maravilha e vulnerabilidade da sua existência, que nos faz dizer “você é querido para mim, você é querida para mim”, acompanhando a palavra com o gesto da mão.
Acima de tudo, a carícia não é um simples toque, mas é contato com o intocável, é tocar o mistério. Paradoxal: a carícia toca a superfície do corpo, mas busca a profundidade da alma. A carícia não quer definir, possuir, mas trazer à tona, reconhecer. Levinas, o grande filósofo judeu a quem devemos uma das melhores fenomenologias do eros, explica que “a carícia consiste em não se apoderar de nada, em evocar o que continuamente escapa da sua forma”. A carícia “não visa a revelação, mas a busca, é um caminho ao invisível. Em um certo sentido, expressa o amor, mas sofre de uma incapacidade de dizê-lo”. A verdade da carícia, analisando bem, é quando a sexualidade e virgindade não são dissociadas, quando a vontade de pertencer e de respeitar um ao outro são uma coisa só!
Pe. Roberto Carelli, SDB
(Fonte: Roberto Carelli – Alfabeto Familiar



Comentários