F como em FAMÍLIA
- Adma Don Bosco
- 24 de abr.
- 4 min de leitura
Quem tem um pouco de senso da realidade e um pouco de sensibilidade cristã percebe isso com preocupação: os fundamentos da humanidade estão abalados! Não é mais apenas a fé que está em crise, mas a razão também. Não somente a experiência de Deus encontra obstáculos, mas a percepção da realidade está distorcida. Até a educação, essa “segunda geração” que nos introduz a uma experiência plena das coisas e que nos ensina a traçar a presença de Deus nas coisas, está cada vez mais ameaçada. Recentemente, a Santa Sé observou que passamos de uma “emergência educativa” a um “alarme educativo”: se antes podia ser difícil transmitir de uma geração para outra algo válido e certo, regras de comportamento e objetivos credíveis para uma vida boa, o fato novo é a irrupção da “ideologia de gênero” nas práticas educativas, porque aqui a ameaça é antropológica, isto é, toca as próprias raízes da visão do homem.
A degeneração das ideologias de gênero.
As teorias e as políticas de gênero, por meio de uma ação hoje premente e generalizada, visam apagar todo vestígio da ordem que Deus imprimiu em sua criação e impor uma nova ordem através de uma reeducação sistemática de estado, que produz programas didáticos para as escolas de todos os níveis, onde teorias completamente imaturas passam como se fossem evidências comuns ou conhecimentos científicos consolidados, amordaçando quem pensa diferente através de intimações legislativas e eletrônicas.

Sob o pretexto de lutar contra as discriminações de gênero, impõem-se em larga escala as convicções das consideradas “comunidades LGBT” (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais), que não reconhecem o caráter “binário” dos sexos, mas promovem a perspectiva das “preferências sexuais”, e que estendem a realidade da família, que sempre e em toda parte foi “a comunidade íntima de vida e de amor do homem e da mulher” (GS 48), a qualquer agregação afetiva.
Também na Itália a realidade da família tradicional, aquela que tem raízes naturais e origens sagradas, está hoje radicalmente ameaçada: não só a rede das administrações públicas coordena a ação educativa das empresas locais de saúde, dos municípios, das escolas públicas com associações LGBT, mas algumas cláusulas do projeto de lei contra a homofobia, já aprovado pela Câmara, trariam para dentro da escola um clima de intolerância em relação à família, tal como é comumente entendida. O resultado previsível, em suma, é que se tornaria impossível educar na família natural: fim da liberdade educacional, fim da liberdade religiosa. Assim como previu Bento XVI, que em um discurso de 2011 se expressou assim: "Não posso deixar de lado mais uma ameaça à liberdade religiosa das famílias em alguns países europeus, onde se impõe a participação em cursos de educação sexual ou civil que transmitem concepções da pessoa e da vida supostamente neutras, mas que na realidade refletem uma antropologia contrária à fé e à reta razão".
A verdade da família segundo a natureza e segundo o coração de Deus.
A família é um sistema de relações originais, cujas dimensões são reconhecíveis e, de forma alguma, comparáveis ou intercambiáveis com outros tipos de relações. Existem três eixos que determinam a estrutura específica da realidade familiar: o eixo intergeracional, o eixo conjugal, o eixo parental. Um não existe sem o outro, um se refere ao outro, um promove o outro e juntos determinam a realidade do tempo e do espaço humanos no sentido do amor. E há três pressupostos essenciais que qualificam a família como troca afetiva e efetiva de amor e de vida entre progenitores, pais e filhos: a diferença sexual, que torna a geração possível, o amor, que torna desejável a geração, e a fecundidade, que abre a intimidade amorosa à novidade de uma nova vida.
Agora, o mal específico do nosso tempo é negar e dissociar essas três dimensões e esses três pressupostos. Vem respectivamente agregados afetivos sem memória, famílias indiferentes à diferença, crianças que não são verdadeiramente filhos, um resultado anormal da ideia de liberdade entendida como “autonomia”. Na realidade, a nossa liberdade é filial, ela existe como fruto do amor entre o homem e a mulher, e deve agradecer ao amor que os precede. Nesse sentido, é linda a expressão do Papa Francisco quando diz que “um povo que não respeita os avós não tem futuro”!
Não é verdade, portanto, que o amor seja suficiente para criar uma família: existe uma “ordem do amor”, como dizia Santo Agostinho, que é absolutamente reconhecível por qualquer pessoa intelectualmente honesta! E é irresponsável legitimar qualquer comportamento ou agregação afetiva apelando ao princípio geral “amor é amor”: a família é, antes, aquela forma de amor que dá forma à sociedade: não pode existir um corpo social sem as próprias células!
E que fique claro que estas não são convicções confessionais, mas simplesmente verdades naturais. Mesmo nos países mais secularizados, vozes de dissidência contra o “pensamento único” da ideologia de gênero estão começando a ser ouvidas. Recentemente, também na Irlanda, como havia feito pouco antes na Inglaterra, uma testemunha que não é absolutamente suspeita de clericalismo, Paddy Manning, um jornalista homossexual, manifestou a sua consternação sobre a força das políticas de gênero, apelando a um respeito elementar pela realidade: "só um homem e uma mulher podem gerar um filho, apesar de todas as fantasias que a ideologia de gênero, destrutiva, nos quer fazer acreditar"; esquecemos que "afirmar a igualdade não é negar a diferença", e acabamos "ignorando o direito das crianças de terem uma mãe e um pai". Nem todo vínculo pode ser chamado de matrimonio e constituir uma família: "o matrimônio tem um significado e produz um efeito vital não só para o indivíduo, mas para a sociedade; não é apenas entre duas pessoas que se amam, mas entre um homem e uma mulher que se comprometem a gerar e criar um filho".
Roberto Carelli SDB
(Fonte: Roberto Carelli – Alfabeto Famigliare)



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